terça-feira, 25 de outubro de 2011

De filha pra pais


E quando os anos começam a passar você percebe que os papeis que representa na vida adquirem novas funções e responsabilidades. Não é mais você, filho, que pode dar preocupação, deixar os outros sem dormir, dar sustos... não é mais você que precisa de tanta atenção, que precisa de ajuda para seguir em frente, de orientação, de mão para atravessar a rua, de segurança. Chega um dia – e confesso que acho que o meu já chegou – que são seus pais que precisam de tudo isso e que lhe dão sustos, temores e preocupações. E então, é a partir daí, que você começa a compreender “tudo” um pouco melhor e como, quando se trata de alguém que você realmente ama, você quer que seu abraço seja capaz de acalmar e fazer tudo passar, de uma batidinha no dedão do pé contra a perna de uma cadeira a uma frustração de uma vida inteira.

Que eu seja o melhor anjo que meus pais possam ter...

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Era estranho para ela pensar que tudo tinha passado. Coisas, pessoas, amores. E agora era apenas ela e seu destino incerto. Todos precisam de amor, pensou. Mas ela não se enquadrava na categoria todos. A algum tempo que tinha mesmo esquecido a cor que tem o amor. Seu cheiro. Seu gosto. Seu som. Mas o mais assustador nisso tudo é que não sentia falta. Afinal como sentir falta de algo que não se sabe mais como é? Algo que não se sente mais? 

E assim ela foi, a cada dia, se acostumando mais com sua própria companhia.
Gostava de fazer seu próprio tempo e ver o mundo pela janela. Como se sentia segura, em perceber que não precisava mesmo de mais ninguém. 

Até que um dia, um belo dia, acordou com um estrondoso barulho. 
Uma pedra acertou sua janela. 
O vento frio soprou seu coração.
E com isso acordou. 
Foi vista. 
Sentiu.

domingo, 21 de agosto de 2011

Evolução da minha espécie


Muita gente coloca em orkuts e faces da vida que não quer nada mais ou menos, que quer qualquer coisa, desde que seja intenso. É sempre nesses momentos que ou penso que não me encaixo muito nesse mundo de “profundas intensidades” ou que eu realmente estou ficando velha.
Não estou dizendo que não quero sentir. Apenas gosto de sentir diferente. Quero que minhas fortes emoções sejam mais suaves e menos arrebatadoras. Já sou suficientemente inquieta por dentro e transformar essa inquietude em palavras calmas e atitudes ponderadas quando os sentimentos saem de mim já dá um trabalho danado. Aproveito muito bem minha vida sem loucura. Ou ao menos mostro minhas insanidades apenas para poucos e bons. Quem não significa algo na minha vida não precisa saber dela.
Seguido sou taxada de “boazinha”. Pois é, boazinha, mais ou menos, sinceramente, não vejo nada de errado nisso. Já tive minhas boas loucuras quando mais nova, então falo com conhecimento de causa que combino mais mesmo com a mocinha da história, ou a amiga da mocinha, pra não soar muito pretensioso. Sair dessa linha – e lógico que de vez em quando saio - além de fazer mal aos que me rodeiam, sinto que também faz mal pra mim. 
Então, em geral, hoje eu sou mesmo assim:
Gosto do bem, da calma... sou da paz.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Meu pai em mim

A maioria das pessoas que me conhecem dizem que uma de minhas qualidades é ser companheira pra todas as horas, parceirona mesmo. Parando pra pensar sobre meu pai, alguns dias antes do dia dos pais, comecei a lembrar dos momentos que passamos juntos e me marcaram. Meu pai era maquinista, então viajava bastante. Mas quando não estava trabalhando ele vivia comigo pra cima e pra baixo...me levava junto no mercado, no centro da cidade, em qualquer lugar. Era a forma que ele se fazia presente: me fazendo de sua companhia.

Meu pai nunca foi carinhoso ao ponto de me beijar no rosto, me pegar no colo, dar abraço apertado. Quando a gente é criança, adolescente, enfim, quando está nas fases em que bom mesmo é reclamar dos pais, eu me importava com isso. Hoje, sinceramente não reclamo. Como ele mesmo define, pra ele falta de proximidade física é questão de respeito, não de falta de afeto. Não quero mais meu pai diferente. Não quero meu pai meloso, não seria ele. Meu pai é esse cara durão, incapaz de ser muito afetuoso, que não demonstra o que sente. Mas que pra mim, sinceramente, nem precisa mais demonstrar, porque eu já o conheço suficientemente pra saber que ele me ama, mesmo que não saiba demonstrar. Não mudaria meu pai. Quero ele como ele é, sentado na fente de casa, fumando como se isso não fizesse mal algum, contando piadas sem graça, dando uma risada engraçada, que só ele sabe dar. E me chamando de baixinha, dando explicitamente a entender que ainda me vê como se eu tivesse 13 anos.

Quero meu pai como ele é, porque hoje vejo o quanto há dele em mim. Meio fechadona às vezes, muito tagarela em outras, sem muito tempo para abraços, mas com todo o tempo do mundo pra fazer companhia a quem quer que seja.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Na ponta dos dedos


Hoje, andar de mãos dadas é mais complicado que descolar um beijo*.

Engraçado. Lembro claramente que rejeitei as mãos que tentaram se entrelaçar às minhas não somente na última vez, mas também na penúltima. Engraçado, porque pensei que talvez se esse gesto de segurar minha mão na rua tivesse sido feito há alguns anos atrás, eu me sentiria super reconhecida e feliz. Radiantemente esperançosa. Porém, lembrei que quando tinha 17 anos, um menino com o qual eu havia ficado foi no recreio da escola me encontrar e quis pegar na minha mão. Eu rejeitei seus dedos.
Mas o mais engraçado ainda de tudo isso, é que esses garotos que tentaram segurar minha mão e foram rejeitados, já tinham me beijado. 
Possível conclusão da história: dar as mãos pode ser mais íntimo que um beijo nos lábios?
No meu caso, sim. Segurar minha mão, encaixar-se em meus dedos, não é para qualquer um. Um beijo pode ser uma simples expressão de desejo. Passageira (o que também não significa que saio por aí beijando quem aparece na frente). Mas segurar minha mão não tem a ver com isso. Segurar minha mão é começar a construir uma ponte. É um primeiro tijolinho de reconhecimento. O primeiro pilar de aceitação.
O que não significa também que essa ponte não irá ruir em poucas semanas. Que não se despedaçará em meio ao rio antes mesmo de chegar até o outro lado. Que não ficará suspensa, na correria da vida de cada um. Mas isso é outra etapa.
Antes de saber se vai dar certo ou não (o que aliás ninguém nunca sabe, a não ser se atrevendo a cruzar a ponte) é preciso conversar pelos dedos. Não precisa olhar nos olhos. Você toca na outra mão até de olhos fechados. E sente. Sente que há alguém ali. E que esse alguém quer se entrelaçar. E de repente duas mão viram uma só. Se encaixam. Se seguram. Se guiam.
Enfim, em menos de um segundo, sem mesmo olhar nos olhos, você sabe que se encontrou.
Engraçado isso. Muitos procuram em um beijo. Muitos procuram em um olhar.
Eu, procuro de olhos fechados, em um dedilhar...
Mas como diria uma frase de um filme, no final das contas "não é lógico. É amor". 

...
*Frase tirada de uma crônica de Fabrício Carpinejar.

domingo, 5 de junho de 2011

Ao amor

Contrariando minha recorrente racionalidade diante do amor, descobri.

Quero despedaçar meu coração em troca de um ínfimo segundo de amor sublime.

Pronto.
Minha mãe me diz: amor não é aquela paixão enlouquecedora, que nos faz perder a razão. Amor é companheirismo, carinho, cuidado.
Mas então porque eu não quero, do fundo do meu coração, quem me oferece isso?
De repente me pego acreditando que ser amigo, é ser amor. Ser amor, é também ser amigo. Mas ser mais amigo que amor é cair no comodismo. 
Quase caí nessa tentadora resignação...
É errado querer que minhas pernas falseiem, que meu corpo se dilua?
É isso que eu quero. Quero um amor visceral, que segure minha mão, mas não me segure por inteira. Não quero segurança. Quero flutuar.
Já sei o que é ser amada. Será que agora posso descobrir o que é amar?
Quero fogo, nos olhos. Vento, nos dedos. Som, no coração.
Quero ter certeza. Quero ter a sorte. 

Que eu ame por um instante...
Basta.

...
Batido, mas eterno e universal:
"Como ja dizia o poeta
Quem já passou por essa vida e não viveu
Pode ser mais, mas sabe menos do que eu
Porque a vida só se dá pra quem se deu
Pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu
Ah, quem nunca curtiu uma paixão nunca vai ter nada, não
Não há mal pior do que a descrença
Mesmo o amor que não compensa é melhor que a solidão
Abre os teus braços, meu irmão, deixa cair
Pra que somar se a gente pode dividir
Eu francamente já não quero nem saber
De quem não vai porque tem medo de sofrer
Ai de quem não rasga o coração, esse não vai ter perdão
Quem nunca curtiu uma paixão, nunca vai ter nada, não"
Vinicius de Moraes

terça-feira, 31 de maio de 2011

Vale mais o coração

Nas últimas semanas descobri que uma amiga de pouco tempo é lésbica e outra de longa data é bissexual. E outra ainda, fala abertamente sobre seu consumo esporádico de maconha.

Fui criada em uma família extremamente tradicional. Não há espaço para gays, lésbicas ou chapadinhos nela. Os homens são machistas e as mulheres conservadoras. Cresci ouvindo que o natural é homem e mulher, diferente disso não é normal. E, ainda, que drogas não é nada legal. Logicamente desenvolvi um "certo" preconceito. Preconceito através de piadinhas inocentes e de posturas certinhas.

Só que um dia eu saí pro mundo. E o mundo está cheio de gays, lésbicas e maconheiros, então como agir? A verdade é que a fala desvirtuou da ação. Na prática não consegui ser preconceituosa. Gosto da ideia tradicional do homem e da mulher e ainda continuo sendo uma guria que nunca provou maconha ou outro tipo de droga ilícita e nem tem vontade de provar. Isso é basicamente o que prefiro para mim, mas saber que alguém do meu lado prefere o contrário não o transforma em uma aberração. Quando minhas amigas me contaram suas escolhas, bem, eu olhei para elas e elas continuavam com dois olhos, duas pernas e uma boca. Continuavam da raça humana, como eu.

Nunca gostei de bicha loca, isso eu confesso. Aquele gay que quer chocar, impôr sua escolha de maneira invasiva. Preconceito, sei bem. Porque é muito mais fácil criar empatia com um gay gente boa, divertido sem ser espalhafatoso, liberal sem ser o estereótipo da pornografia... Preconceito, eu sei. Preciso melhorar. Conheci um assim, também há algumas semanas. Aliás, ele não era gay. Ele mesmo disse que não se definia em nada. Namorou duas meninas e agora sonha acordado em namorar um menino, pra saber qual é. Um cara direto, simples, amante do amor, simplesmente. Isso na teoria me choca. Mas na prática valeu muito mais a simpatia, o riso compartilhado, o bom papo. Pouco importou que gênero humano ele iria levar pra cama naquela noite, afinal, isso não me dizia respeito.

Também não gosto de drogado sem noção. Playboyzinho que gasta o dinheiro do papai e da mamãe em baseado e que não quer nada da vida. Não acho legal usar drogas, mas não posso rejeitar uma amiga por ela fumar de vez em quando, pelo simples fato de que ela é uma ótima amiga. O que ela fumou ou deixou de fumar não muda isso.

Já sobre o sexo, acho que ele é antes de qualquer coisa, intimidade. Apesar de ser praticado por duas pessoas (ou mais, vai saber) é estritamente pessoal. Mesmo vivendo em uma sociedade em que o público e o privado se misturaram, depende somente de cada um colocar o limite que acha correto.

Uma outra amiga sentou ao meu lado semana passada e disse estar incomodada pelo fato de que não digere bem essas diferenciadas opções sexuais e usos alucinógenos. Compreendo ela perfeitamente. É meu pensamento tradicional falando.

Só que eu aceito meu amigos gays, lésbicas e bissexuais - com uma naturalidade espantosa para mim mesma -, sem que isso signifique que sou simpatizante ou que deixei de ser tradicional. Continuo sendo certinha, continuo querendo casar na igreja de branco, daquele jeito bem démodé. Se bem que nesse mundo, nada mais é fora de moda. Acho que hoje essa é a grande questão. Faça o que quiser, desde que isso te faça bem e não faça mal a ninguém.

Acho que com o tempo aprendi que respeito caminha lado a lado com o amor, não interessa que forma ele adquira. Assim como eu tenho o direito de querer para a minha vida posturas tradicionais e certinhas, quem está ao meu lado tem o direito de querer para sua vida posturas modernas e "erradinhas".

Não esquecendo que o que é errado pra mim, pode ser certo pra alguém.
Como diz Cássia Eller em uma música que adoro "Não importa o compromisso, vale mais o coração".

É. Resumindo, vale mais o coração...


quinta-feira, 5 de maio de 2011

Que sorte a minha

Não sei o que fiz em outra vida. Mas suspeito que não tenha sido uma pessoa muito maligna. Digo isso porque quando paro pra pensar na minha vida (e isso acontece zilhões de vezes por dia) sempre acabo percebendo o quanto sempre fui rica. Não, eu não tenho dinheiro pra comprar um apartamento de 3 milhões com vista panorâmica pro mar, nem mesmo coisas bem simples (no momento um roupeiro para poder enfim, desfazer minhas malas que guardam minhas roupas desde início de março). Eu não tenho tudo o que eu quero, mas tenho uma riqueza que carrego no peito e não é gasta, nunca. Sempre comento que já morei em inúmeros lugares (não vejo a hora de pousar minhas asinhas em algum lugar definitivamente) e em todos, TODOS, eu sempre conheci pessoas que me trataram tão bem, mas tão bem, que ás vezes eu até me senti constrangida, afinal eu nem fazia nada. Pessoas que mesmo diferentes, em idade, em comportamentos, em conhecimento, rico ou pobre, me receberam de braços abertos.

2011, cidade nova, casa nova, vida nova. E as pessoas novas que chegaram, o que dizer? As conheço, certamente, há muito mais que ínfimos 2 meses. As conheço de anos, como amigos queridos que nos aconchegam com tantos sorrisos. Tardes de aulas de matar, leituras que a gente não entende nada, finais de semana encerrados em casa, estudando, estudando, estudando. E no meio desse mundinho particular, rimos, rimos muito, entre nossos cafés, festas de aniversário surpresa, cervejinhas no fim da aula, aventuras por lugares perigosos da cidade, amizades com cachorros de rua mancos, lasanhas regadas a um bom vinho, e muitas conversas tão filosóficas quanto idiotas, sem fim.

Se morresse amanhã, certamente eu diria: Não constituí fortuna, não arrecadei dólares, jóias, imóveis, carros zero, roupas caríssimas ( o que não não implica que um dia eu não queira adquirir). Mas, ah! Como fui rica. Rica da riqueza mais rica que alguém pode enriquecer. Rica de olhares sinceros, de risos companheiros, de passos nunca sozinhos, rica, dos melhores amigos. 
Que sorte, eu diria, que sorte a minha!